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Não quero falar o que gosto de fazer, quem eu sou e o que pretendo, aqui estão histórias, romances, relatos da minha vida ou apenas fantasias, ideias de temas, dilemas, desabafos, verdade ou invenção essa sou eu e deixo essa parte da caixa aberta a você... bem vindo ao meu mundo seja ele de faz de conta ou a dura realidade! Compartilhem, comentem, reflitam, sintam raiva, ou amor, deixo livre e aberto a qualquer sentimento, aqui ele será bem vindo!

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Também se transa com a mãe dos seus filhos.

" Clara acordava as sete da manhã, não esperava seu despertador tocar, ela o desligava antes de começar o som irritante que fazia Paulo, seu marido, acordar com mal humor.
Colocava seus pés no chão frio, esticava seus braços para cima, escutando seus ossos estralarem, e se retirava no silêncio quase absoluto do quarto.
Ligava a luz do banheiro, fechava a porta, e sonolenta tentava enxergar seu reflexo no espelho. Dava de ombros quando via seu rosto, com enormes olheiras, e seu cabelo bagunçado. Lembrava do tempo em que acordava da mesma forma mas por motivos que lhe fazia sorrir e não se lamentar.
Lembrava de como Paulo bagunçava seu cabelo na madrugada enquanto em movimentos loucos e suados se entregava a paixão e ao tesão do homem com quem escolhera ser o de sua vida.
Clara, apaga a luz do banheiro e segue ao rumo que mais fazia dentro de casa. Ela atravessa a sala, ainda com a luz gelada do Sol começando a dar o ar da graça, carrega a pouca bagunça que as crianças deixaram no sofá, o que ela não conseguiu arrumar porque arriscou mais uma vez, tentar fazer amor com seu marido, depois de ter colocado seus dois filhos para dormir.
Lucas e Miguel, um de 6 anos e outro de 8. Tudo que Clara fazia agora era apenas para seus filhos, afinal, eles lhe traziam boas lembranças de noites intermináveis de amor com seu marido, eles eram o resultado das noites mal dormida que o casal não cansava de praticar.
Chegando na cozinha, fechou a porta e começou a preparar o café da manhã e o lanche dos pequenos para a escola. Clara logo teria que acordar Paulo, e depois arrumar as crianças para a escola.
Todos os dias da semana, eram praticamente iguais, apenas com direito a alguns imprevistos que a vida nos dá, como uma febre de um dos meninos, ou um papo que não seja o tempo, contas para pagar, a tentativa de convencer o marido a fazer algo de diferente com os filhos no final de semana, ou uma lista nova para o mercado.
Todos estavam tomando café, e naquele dia tudo estava igual, todos em silêncio, e o que Clara falava com o marido era sempre a mesma coisa, o que teria para o jantar e um pedido, que ele não demore para chegar em casa.
Alguns minutos se passam e Clara esta sozinha em casa. O marido se foi levando as crianças para a escola, e ela ficou com a bagunça do café da manhã e a rotina de limpeza, pensava ela que poderia hoje, pelo menos hoje fazer algo novo, ou até mesmo não fazer nada, ficar no sofá pelo menos um dia. Logo esse pensamento sai da cabeça, se o jantar não estivesse lá quando Paulo voltasse, ela teria que aguentar outra briga e assim mais uma vez a esperança de uma noite de amor com o marido iria embora.


Paulo trabalha em uma empresa pequena, mas que ele comanda, isso fez com que Clara não precisasse trabalhar, e como o sonho no começo dos dois era exatamente esse, Clara ficaria apenas sendo mãe e cuidando da família.
O casamento foi por amor, os dois se amavam, e se perguntasse para Paulo hoje, ele responderia com todas as letras que amava sua mulher e sua família, que Clara era a mulher de sua vida.
Mas todos os dias Paulo saia as 5, não as 7 como falava para Clara. Saía as 5 para se encontrar com Fátima.
Fátima era uma mulher que procurava um amor, mas não precisava ser amor para a vida toda e muito menos fiel, o que viesse era lucro. Tinha seus sonhos, e nele caberia qualquer um que quisesse tê-la como mulher, alguns por algumas horas, como Paulo, outros duravam pouco mais.
Ela não era garota de programa ou algo relacionado, Fátima tinha uma pequena loja de roupas ao lado da empresa de Paulo, mas se sujeitava a qualquer tratamento na cama para ter seus momentos de amor.
Paulo sempre foi um homem comum, não ostentava muito, parecia sempre o cara que preferia a posição "papai e mamãe", era o dono da moral e dos bons costumes quando se tratava de assuntos de sexo e traições. Não que implicasse de Clara sair, mas se comportava com diferença, em casa era o pai e o marido como pede o figurino, e com Fátima, ah com Fátima, era bem diferente.


Ao arrumar a cama de seu quarto, Clara se lembrou do dia em que ainda não tinham filhos, eram apenas loucos recém casados, trepando em todos os cômodos da casa, testando pias e máquina de lavar. As vezes dizia estar com cólica só para dar uma folga pro seu corpo.
Clara sempre gostou de fazer sexo com o marido, nunca deixava de se cuidar, até hoje, fazia as unhas toda a semana, e sempre da cor que o marido gostava, o cabelo era arrumado todos os dias, e nunca aparecia na frente dele com uma roupa gasta ou velha.
Lembrava dos apelidos quentes e sujos que o marido a chamava, os puxões de cabelo, os tapinhas, as palavras no pé do ouvido. Muitas coisas. E ela, quando se lembrava disso, procurava também lembrar em qual época isso tudo mudou.
Um dia Clara levou os filhos para a casa da avó, e vestiu uma espartilho vermelho e esperou o marido na cama, esperou até adormecer, e acordou com o som da tv na sala, e o ronco do marido no sofá, ele nem se deitou ao lado dela, ele nem viu o que tinha debaixo do lençol.
Depois desse dia, Clara viu que já não era mais a mesma coisa.


Não foi diferente dos outros dias, Paulo saiu as 5, e esperou Fátima no Motel do segundo quarteirão. Mal se deram oi. Paulo arrancava a roupa de Fátima, que entregava a ele tudo que Paulo pedia.
Era como o "mestre mandou", direito a tapas, puxões, xingamentos, posições... Fátima se deliciava com todo o prazer que Paulo lhe dava, e Paulo, não media pudores dentro daquele quarto barato de Motel, sabia que poderia fazer tudo que quisesse, que Fátima, no dia seguinte, estaria no mesmo quarto, fazendo tudo novamente sem que ele precisasse limpar a sujeira depois.


Assim se passaram dias, meses, e Clara foi morrendo aos poucos, Paulo foi morrendo aos poucos. Não era mais Paulo com quem havia se casado, não era mais o homem que tinha tanto desejo por ela que as vezes não esperava nem chegar em casa. Faziam dentro do carro, na garagem do prédio.
Depois de meses, anos sendo assim, Clara acordou diferente.
Apesar de ser um dia diferente, Clara fez tudo igual, menos desligar o despertador, que resultou em um pulo enorme de Paulo da cama e uma cara emburrada no café da manhã.
Clara estava quieta, não abriu a boca, mas sua cabeça estava aos berros. Arrumou seus filhos, se despediu deles antes de eles irem a escola, deu um beijo seco em Paulo e fechou a porta lentamente.
Ao escutar o som deles descendo o elevador, Clara ligou para a mãe, pedindo que ela pegasse seus filhos na escola e ficasse com eles naquele dia. Sem dar muitas explicações do pedido feito, desligou o telefone e permaneceu, de pijama, no sofá, e nesse dia Clara só fez esperar Paulo chegar em casa.


Paulo trabalhou muito, como todos os dias, se livrou rápido dos últimos clientes para dar tempo de uma "trepadinha" com Fátima. Mas nesse dia, acho que o universo estava a favor de Clara.
Fátima estava doente, foi o que uma das funcionárias dela disse a Paulo. Mas o manobrista do estacionamento que eles dividiam ao lado, disse a Paulo que viu Fátima saindo mais cedo acompanhada por um homem alto e de boa aparência.
O manobrista, como as vendedoras sabiam do caso entre os dois, e quando o manobrista disse isso a Paulo, ele disse em tom de ironia e fofoca, que deixou Paulo puto da vida e com a pulga atrás da orelha. O jeito foi Paulo chegar mais cedo em casa. Pelo menos poderia ver o jornal que sempre perdia, encontrando Clara vendo novela.
Quando chegou perto da porta, percebeu que não escutava barulho de nada, nem de tv, muito menos de panela, água saindo da torneira. Deduziu que Clara tivesse saído, mas achou estranho a mulher não ter avisado. Respirou fundo e girou a chave.
Encontrou Clara sentada no sofá, de pijama, olhando a janela.


- Amor esta tudo bem? Ainda de pijama? - Disse Paulo desafogando o nó da gravata e colocando a pasta em cima da cadeira da mesa de jantar.
- Consegui lembrar. - Disse Clara, séria, olhando ainda a janela.
- Lembrar de que? havia esquecido alguma coisa importante.
Clara piscou lentamente, respirando fundo, pois sempre foi chorona e se vacilasse, ao invés de ser durona dessa vez, colocaria tudo a perder. Faria com que Paulo tivesse dó dela, e não era isso que ela pretendia nessa noite.
- Clara, esta bem? e os meninos?
- Estão na minha mãe, porque hoje eu quero voltar no tempo. - Clara se virou para Paulo, e com um gesto convidou Paulo a se sentar no sofá junto a ela.
- Não estou entendendo, o que aconteceu? - Paulo estava com medo, sentia o suor brotando, e o pânico de seu segredo com Fátima ter sido descoberto fez com que o coração começasse a bater rápido. Mas tentou ao máximo não transparecer.
- Aconteceu muita coisa, na verdade desde que me tornei mãe. E eu estou cansada, cansada de ter que implorar de você algo que eu tinha antes sem precisar pedir.
- O que? Falta algo pra você? Fiz algo de errado?
- Falta sim, falta sexo. Falta você me desejar, falta você me chamar de vadia, de piranha, de cachorra, de me puxar no meio da madrugada, de me beliscar a bunda quando estou na cozinha ou quando passo por você, falta você me olhar daquele jeito que me tirava a roupa e a vergonha, falta você me jogar na cama e me comer de todos os jeitos. O que aconteceu? Eu não mudei nada, continuo com o mesmo corpo que antes, mesmo depois das duas gravidez. Malho pra você, fico bonita pra você, faço tudo para que você me olhe igual como olha para Fátima.
- Do que esta falando? Acho que você imagina demais nessa casa.
- Não sou idiota, eu sei, sei bem o que acontece, mas por amor eu fico, por uma chance de voltar a ser tudo como era antes. Você olha com desejo pra ela, o que faz você olhar assim para ela e não olhar para mim? Sou eu a sua mulher lembra? Lembra das nossas loucuras? Lembra? Selvagem ou amorosa, era assim que éramos.
- Você disse bem, éramos. Você agora é mãe. Temos filhos.
- Então é isso. Como não percebi isso antes? Mães não podem ser comidas pelo seus maridos? É isso? Tem que ficar em casa cuidando do lar, tem que ficar vendo novela e se contentando em ver o cara bonito na tv? - Clara começou a aumentar a voz, e se levantou do sofá deixando Paulo sentado com a gravata totalmente aberta.
- Você é mãe agora, tem que se dar o respeito. Como posso chamar a mãe dos meus filhos de vadia? Como posso te tratar como uma qualquer na cama?
- Por isso mesmo que você deve me tratar assim na cama, porque eu mereço, e não por ser uma vadia, mas por eu ainda te querer, por eu ainda sentir vontade. Sabe o que e vontade? Aquilo que você sente com a Fátima. Ou você só sente isso com ela, porque com ela você pode ser o que foi um dia comigo, antes de eu ser "mãe"? - Clara chegou bem perto no marido, agora falando assustadoramente baixo, apoiando suas mãos sobre os joelhos de Paulo e olhando bem nos olhos dele. - Pois saiba de uma coisa Paulo, se eu sair na rua sem meus filhos, sem dizer que sou mãe, muitos podem me comer sem nenhum tipo de regra imbecil dessas que você me disse, sabe porque? porque para ser mãe é preciso ser mulher, e mulher meu bem, mulher tem vontade, mulher quer ser desejada, e se meu marido, aquele com quem eu tinha as melhores noites e dias e madrugadas da minha vida, se esse homem não quer me dar esse prazer, saiba, que lá fora eu deixo de ser mãe pra ser mulher de qualquer um. Então escolha. Se só porque sou mãe dos seus filhos, porque tenho obrigações no lar, eu não posso ter prazer sem ser o "papai e mamãe" só pra você dizer que transa ainda comigo, então... acho que prefiro ser mãe para os meus dois filhos e mulher eu vou ser de qualquer um. E você ao invés de comer a Fátima, e ir embora, voltar para a sua casa, e dormir, poderia muito bem estar fazendo tudo isso é comigo. Mas se for porque você não me ama mais, e não sente mais desejo por mim por algum motivo que não seja esse, então peça o divórcio que eu assino e vou viver a minha vida.


Não era esse último motivo e Paulo sabia bem, ele realmente amava Clara, sempre achou ela linda, e ainda continua sendo, o que impedia esse homem era a maldita regra machista de que a mãe de seus filhos não pode ser a mesma para ser despejado o tesão que lhe consumia, com as vontades mais bizarras e sujas. E se não se desprendesse dessa ideologia ultrapassada...ele perderia Clara como mulher e como mãe de seus filhos.

(Escrevi esse texto porque li um livro esses dias e vi uma matéria sobre esse assunto, e que um dos personagens deixava a mulher em casa para poder fazer com outra o que tinha vontade, mas a mulher deixada em casa também tinha as mesmas vontades que o marido, mas ele nunca perguntará ou nunca tentará com a sua própria mulher, achando mais fácil e mais ético (do ponto de vista dele) transar com outra mulher que não fosse a sua, e separar amor de tesão. Parece ridículo, mas ainda existe muitos por ai assim. E foi um modo de mostrar que mesmo mãe, mesmo casada, elas sentem vontade como antes, sentem vontades escuras e sujas, elas sentem vontade. Ah se eles soubessem disso, muitos casamentos durariam bem mais.)


segunda-feira, 2 de setembro de 2013

O andar do meio.

" Abriu a porta do banheiro e pendurou sua roupa de troca, mudaria sua roupa que passou o dia todo grudado no seu corpo, por um pijama velho e confortável, daqueles que serve para o frio e para o calor.
Voltou ao quarto, havia esquecido seu inseparável celular, que agora serve mais para escutar música embaixo do chuveiro, porque ligações mesmo, eram poucas.
Ah sim, um banho no fim do dia, para tirar aquela sujeira, stress, e preocupações do dia, seria um banho, só ela e água... seria...
Já embaixo do chuveiro, e com a música em um volume médio, ela imaginava soluções de sua vida, ela imaginava um clipe melhor para aquela música que escutava, imaginava tudo...menos o que estava prestes a acontecer.
Quando tirou a cabela debaixo do chuveiro, que jogava sua catarata de água nos últimos vestígios de espuma, ela escuta um barulho... Apertou os olhos igual pessoas fazem para tentar enxergar algo sem óculos, uma reação que parece ter o poder de te fazer mais atenta, alerta, até escutar melhor, as vezes, parece ser isso que acontece.
Não... não foi barulho da música. Acho que é só a telha com o vento. Sei lá. - pensou torcendo os cabelos para tirar o excesso de água.
Era uma barulho, e ele não parou.
Ela abriu a porta do box, e viu a fumaça que estava ali presa naquele quadrado de vidro claro, quase transparente, sair como presos em rebelião. No vão que abriu do vidro, tateou a pia em busca do celular, achou, e abaixou o volume até que só poderia escutar o barulho do chuveiro ainda ligado, e bem quente.
No banheiro não se via muita coisa, sempre tomava o banho bem quente e o vapor se comprimia naquele banheiro, todos os dias.
Eu escutei, não era a música. Cadê? Cadê... (Uma pausa em silêncio) É eu estou maluca. - Disse bem baixinho, e voltou a colocar a música, mas em um volume bem mais baixo que antes, sempre alerta.
Ela escutou mais alto agora. Era barulho de voz. Voz grossa.
Dessa vez, deixou o som e o chuveiro ligado, se enrolou na toalha, mesmo pingando. Não poderia desligar tudo, se houvesse alguém em casa, Imaginariam que ela havia saído do banho.
Nas pontas dos pés, ainda molhada, colocou o ouvido na porta do banheiro.
Não escuto nada. 
Abriu a porta muito devagar, saiu e a fechou. Não havia ninguém em casa, mas o que ela escutara eram certamente uma voz, e de homem.
Voltou ao banheiro, ainda sentindo seu coração bater até no pescoço, via-se o balançar rápido da toalha enrolada em seu corpo.
Desenrolou-se da toalha, e entrou no box novamente. Estava tudo branco, o vapor estava denso, e mal se via as paredes. E o silêncio voltou a reinar.
Chega. Muito tempo no banho. Hora de sair.
Enquanto fazia seu ritual de saída do banho, os primeiro lugares que sempre enxuga, o modo que passa a toalha em cada parte do corpo, eram sempre os mesmos.
O som ela já havia desligado, e era apenas ela e seus pensamentos. Quando novamente o sussurro apareceu.
Abaixou a tampa do vaso sanitário, e sentou-se. Novamente apertava os olhos como se facilitasse escutar melhor.
Vinha daquele banheiro.
No banheiro nem se quer havia janelas, por isso o vapor se prendia até a porta se abrir. De onde estava vindo a voz.
Olhou para todo o banheiro, abriu a porta, e olhou para p teto.
Ali estava, nunca havia reparado... Um recorte quadrado no telo, fechado por uma porta de madeira pintada da mesma cor. Sim, aquilo era um sótão, mas como alguém estaria tanto tempo lá em cima? A casa ela havia herdado de seus pais, morou a vida toda lá, e nunca escutara nada.
Colocou seu pijama, mesmo estando ainda molhada com o vapor que grudava na sua pele, foi até a cozinha, pegou a escada, ainda não se conformando de ter alguém preso lá. Afinal era preciso uma escada para conseguir subir. E a dela sempre esteve no mesmo lugar.
Passando pelo balcão da cozinha, olhou para suas facas de carne, resolveu levar uma por precaução. Mesmo sabendo que se tivesse que lutar, provavelmente perderia. Ela se enquadra em um corpo não muito atlético e muito magro para combate. Sairia bem se o que tivesse que fazer, fosse correr.
A voz não parava, era como se fosse uma reza, ou estivesse falando sem parar, mas ainda muito abafado para conseguir escutar.
Abriu a escada, fez o sinal da cruz. Subiu cada degrau com as pernas tremendo. Sentia a escada balançar a cada pisada que ela dava em um degrau.
Apoiou as mãos na tampa do sótão, prendeu a respiração...
1...2...3...Devagar. - podia até ouvir seus pensamentos.
Empurrou a tampa para cima, abrindo apenas uma fresta, e olhou em volta, parecia vazio.
Nem muitas caixas tinham por lá, e as que tinham era impossível esconder uma pessoa. Então arrastou a tampa para o lado e arriscou colocar sua cabeça para dentro do teto, olhando rápido em todas as direções.
Não era muito grande, ela havia esquecido a única vez que tinha subido lá, era pequena, depois nunca mais houve interesse de saber o que lá havia escondido.
Constatou que lá não tinha ninguém, e já que havia subido, resolveu olhar o que havia guardado lá em cima.
Eram pequenas caixas, com coisas antigas de sua família, mas nada que a fizesse sentar e olhar.
- Psiu... Ei, esta ai em cima? Estou aqui. - A voz, agora um pouco mais nítida, apareceu em um dos cantos do sótão, mas apenas a voz.
Ela não via nada lá em cima, olhou tudo, não tinha ninguém.
Foi caminhando para a direção de onde ela achava ter escutado a voz sair. Com a faca em uma das mãos, era impossível não senti-la tremer.
- Isso você esta perto... muito perto, agora abaixe, nesse buraquinho. - Disse a voz mais uma vez.
Ajoelhou-se, a faca tremia na sua mão, e observou um pequeno furo no chão.
- Olhe por ai... estou aqui embaixo. - Mais uma vez a voz disse.
Ela pensou, não enfiaria o olho lá sem saber o que a esperava lá embaixo, pensou também que lá embaixo seria a sua casa, e por último pensou em estar louca.
- Não tenho a noite inteira e nem tempo pra ficar aqui esperando. 
Ainda assustada, ela posicionou a cabeça acima do buraco, fechou um dos olhos, e observou de longe... Uma sala branca, não era seu banheiro, e havia um homem, de costas para ela, cabelos pretos como petróleo, brilhantes, estava com a cabeça baixa. A sala era de uma luminosidade intensa, não havia móveis pelo menos no seu campo de visão. Não se atreveria colocar seu olho naquele buraco com o risco de ficar cega por uma ponta de faca ou até mesmo com uma bala nos miolos.
- Quem é você? Não é meu vizinho, não mora embaixo do meu sótão, nunca te vi na vida, apesar de estar de costas, sei que não te conheço. - Disse ela em direção ao buraco.
- De fato não me conhece, mas estou louco para lhe conhecer. Mas para isso, precisa querer passar por esse buraco, tenho muitas coisas para te mostrar aqui deste lado. - Disse o homem, com uma voz cordial, sem esboçar algum tipo de sentimento, e isso era o mais assustador.
- Porque acha que irei descer ai, sem te conhecer, sem saber o que quer, e se você não percebeu, neste  buraco o que consegue passar no máximo meu dedo médio. - A voz dela já não estava mais cortada de susto. Falava firme.
- Sabe que o buraco não é problema, basta você me dizer que esta interessada em que tenho a lhe mostrar. - E ele se virou, olhando diretamente para o buraco, seus olhos eram de um castanho brilhante, fundos, olhar de quem convence apenas com ele, sorriu com o canto dos lábios, que eram perfeitos. Típico problema irresistível, a pele levemente bronzeada, e o terno impecável preto, sim ele estava todo de preto, em destaque da sala que ele estava, um ponto negro brilhante em uma sala branca como olhar para o Sol.
- Realmente não te conheço. Então, adeus, e por favor pare de cantar ou falar por este buraco, porque o som todo vai para o meu banheiro.
- Você não me conhece, mas sei que não se arrependeria de me conhecer. Pois o que tenho para lhe mostrar é inesquecível. - Mais uma vez seus olhos brilharam como um lobo caçando.
Algo havia naquele olhar que estava quase convencendo ela a ver o que tanto ele queria mostrar.
- Caso eu diga que sim, como iria até ai?
- Dou meu jeito, garanto que você não vai sentir e nem se machucar.
- Só irei se puder levar meu celular e avisar alguém onde estou. De outra forma não topo.
- Aqui não é preciso celular, na verdade, digamos não ter um bom sinal. E avisar alguém, deixe me pensar...hum... tudo bem, avise. - E mais uma vez o olhar foi direto nos olhos dela, fazendo-a tremer.
- Ok. Volto em um minuto.
- Apenas um minuto, depois disso, você perde sua chance. Contarei agora.
Ela desceu as escadas, e pegou o celular. Discou para sua amiga mais próxima.
- Ta, me escuta, não esta acontecendo nada, e eu estou bem, em casa, mas encontrei um buraco no meu sótão, e eu to subindo para ver o que é, se caso você não conseguir falar comigo amanhã, por favor chame a polícia.
- O que você esta falando, você bebeu? me liga a noite e fala que vai ver um buraco no sótão as 9 horas da noite?
- Amiga, é só isso, como estou sozinha, caso eu caia essas coisas, sei lá, você já sabe que eu to lá em cima. Ok?
- Tá bom, mas qualquer coisa leva o celular lá pra cima, e me liga se precisar.
- Acredito que lá não tenha um bom sinal. Mas de qualquer forma eu irei levar. 
Desligou a chamada coma  amiga, respirou fundo, e subiu novamente a escada. Ajoelhou-se em cima do buraco e se deparou ao olhar, que o homem estava a encarando.
- Quase, por alguns segundos eu poderia ter ido embora. Então? Avisou?
- Sim, e como você irá abrir isso, é cimento.
- Isso eu posso acolher como um aval para que eu a traga aqui? São suas palavras?
Ela respirou fundo, fechou os olhos por alguns segundos, e disse. - Sim.
O buraco então começou a abrir, apenas a abrir como se derretesse ao calor. E ela escorregou para dentro da sala branca.