" Conheci Jordania no metrô de Paris, ela de alguma forma me salvou, mas ainda não sei onde fui parar.
Desembarquei no aeroporto da Capital Francesa, havia apenas uma mala nas mãos, muita coragem no coração e pouco dinheiro no bolso. Era a segunda vez que retornava a cidade, mas bem diferente da vez anterior, antes eu tinha dinheiro e lugar para ficar.
Tudo me parecia mais antigo que antes, as ruas e os lugares eram mais escuros, e o povo parecia vestir roupas que encontramos em brechós de antiguidades. Mas como era um sonho retornar a Cidade Luz, achei tudo aquilo lindo.
Mas logo que sai do aeroporto com uma mala grande na mão, vi que não tinha destino depois daquela porta automática e que seria eu e a mala. Apenas.
As ruas estavam escuras, mas antes de me desesperar em procurar uma casa ou um quarto, eu fui andar pelas ruas. A mala já nem estava tão pesada, eu queria mesmo era matara a saudade que eu tinha de olhar para cada ponto iluminado.
Quando me cansei, comecei a pensar na possibilidade de encontrar um lugar. Não sabia ao certo como chegar nas casas que eu conhecia, e como um flash eu fui parar em um vilarejo escuro, com lamparinas na porta, sim, eu já não estava em Paris, era bem distante de lá e estava com medo.
Maior que meu medo de estar perdida e sem comunicação, estava a necessidade de dormir, sabia que na rua não poderia. Avistei uma porta, bem iluminada, com a descrição de um Albergue. Bati e entrei.
Uma senhora me atendeu, cabelos brancos, olhares cansados, me disse o valor, que era tudo que eu poderia pagar para uma noite, e eu subi com as chaves nas mãos. Abri a porta que indicava o número no chaveiro, e quando percebi, estava em um quarto, cozinha, sala e banheiro, muito pequeno, mas necessário para o momento.
Fiquei lá por alguns dias, mas todos os dias que eu saia eram noites, parecia não haver Sol por lá. Eram só as lamparinas da rua e o brilho da Lua.
Meu dinheiro estava se esgotando, peguei minha mala, paguei minha conta, e sai mais uma vez com a mala nas mãos e sem destino nenhum, ou eu voltava para casa, ou eu seguia a procurar um trabalho por lá.
Segui cidade a dentro, escura, úmida, e praticamente deserta, só se ouvia barulho de pessoas dentro de suas casas, e eu não conseguindo lembrar de como eu fui sair da Capital e parar em um vilarejo campestre e assustador.
Havia uma casa de madeira, estilo camponês, telhado em forma pontuda triangular, fumaça saindo da chaminé, a casa em cor marrom escura, pela falta de luz foi difícil saber se era de madeira ou pintada dessa cor, e lá dentro, pude ver uma luz de vela, se movimentando pelo comodo de cima.
Não havia mais nada ao meu redor, eu já havia até me distanciado do vilarejo procurando voltar para a Capital, só sobrou essa casa, e para ajudar, em volta das árvores e da casa, havia aquele sinistro nevoeiro. Mas era eu sozinha na floresta, ou eu pedindo ajuda a um camponês.
"O que isso tem de mais? " Pensei, só não sabia a resposta e estar dentro de uma casa com um desconhecido ou uma desconhecida.
Quando a imagem apareceu na janela no andar de cima da casa, iluminada apenas com a vela, o rosto branco, e os olhos vazios e totalmente negros, a roupa toda preta. Nossos olhos se encontraram, e a imagem em uma rapidez absurda sumiu da janela. Eu corri, corri com a mala na mão e sem ver o que estava a minha frente. E parecia que a pessoa corria atrás de mim.
Avistei uma estrada, ali, já iluminada, não havia mais ninguém me seguindo, e eu segui sentido contrário daquele vilarejo escuro. Nenhum carro passou. Perdi meu sono, e continuei a andar, até finalmente perceber que Paris estava lá, e estava exatamente da mesma forma original, iluminada, com muitos carros modernos, transito, e finalmente era dia.
Lembrei da casa onde morei, e segui para lá, pensei em conseguir um abrigo até arrumar alguns trocados. Andei muito, o frio castigando, e me surpreendi em saber que a mulher que eu procurava, havia se mudado de lá, sem deixar endereço e nem telefone.
"Fim da linha" Pensei, e pensei em deixar tudo e voltar para a minha casa, todas minhas chances tinham acabado, e eu sentia que estava sendo seguida desde o vilarejo escuro.
Andei pelas avenidas, corria para passar os carros, até chegar em uma estação grande de trem, estava decidida a voltar para o aeroporto, trocar minha passagem e ir embora. Percebi só lá, que eu não tinha pego meu mapa, que eu não tinha pego meu caderno de anotações, fui com a mala apenas com roupas e algumas coisas para comer. Eu nunca havia me separado daquele mapa na minha primeira viagem, e foi esse motivo que me fez parar no vilarejo.
Avistei um balcão de informação, uma mulher de cabelos curtos, jovem, tinha seus vinte e poucos anos. Com meu francês enferrujado disse:
- Bonjour, s'il vous plaît vous avez une carte? (Olá, por favor você teria um mapa?)
- Olá...ops...Bonjour! Je n'ai pas de carte. (Olá, não tenho aqui um mapa.)
Percebi logo que ela havia trocado o Bonjour por um Olá, e pela expressão de erro, percebi que ela não era francesa e sim brasileira. O sorriso foi inevitável ao encontrar alguém da minha terra, no estado que me encontrava, perdida e desamparada.
- Você é Brasileira? - Perguntei.
- Sim, sim, ai que bom,desculpe a minha inexperiência, não conte pra ninguém, sabe, meu primeiro trabalho aqui.
- Fico feliz em encontrar alguém do meu país, ainda mais no estado que estou.
Expliquei rapidamente o pouco que eu havia passado em dois dias que estava lá, estava sem dinheiro, sem casa e sem dormir.
- Vem comigo, vou arranjar umas moedas pra você e te colocar no trem que te levará próximo ao aeroporto.
- Obrigada, dinheiro eu tenho mas tudo em real, não me pergunte mas não troquei o dinheiro.
- Aqui não tem loja de câmbio, mas eu consigo as moedas só para você pegar o trem. Esse trem você vai amar.
Ela foi em direção a uma máquina rosa, de refrigerantes, encostou nela, e com um rápido balançar na máquina, caiu muitas moedas, pequenas, grandes e médias.
- Vou pegar um pouco pra mim, e o resto dá e sobra pra você pegar seu trem. - Disse a mulher.
- Obrigada, muito obrigada mesmo.
- Não precisa agradecer, agora me siga, vou te colocar dentro do trem.
Segui e me deparei com um trem muito diferente do que havia visto e o que eu conhecia de trens. Ele não tinha teto, e as pessoas iam deitadas enroladas em enormes cobertores branco e verde, na verdade cobertores e edredons, subi a escada sentei e a mulher me deu a mala.
- Poxa que trem é esse? - Disse.
- É o trem da noite, você vai dormindo já que não dormiu a viagem toda, é mais barato porque não tem teto, mas você vai aquecido por esses cobertores, nem vai sentir. O trem para em uma estrada que dá para o aeroporto, não tem como errar, a maioria dessas pessoas vão para lá, qualquer coisa você segue elas. Muito boa sorte.
- Espere, nem sei seu nome. - Eu disse, percebendo que não havia nem perguntado o nome da moça que me ajudou.
- Você sabe meu nome já.
- Não, eu não sei.
O trem fez barulho de saída, a moça desceu as escadas da lateral no vagão, e eu senti o trem se movimentar.
- Seu nomeee? - Gritei para ser maior que o barulho da máquina do trem.
- Jordania, meu nome é Jordania.
O trem partiu, e quando fui me ajeitar nos cobertores, vi que o crachá de Jordania estava lá caído. Havia uma foto dela, e eu nunca havia reparado que Jordania na verdade tinha o meu rosto."
Tudo que guardo aqui dentro. ****************************************************************************************** (reformulação do blog sessaocorujabykika.blogspot.com, o passado ficou para lá. Ainda ativo. Aqui pretendo deixar outras coisas nessa caixa.)
Tudo que tem aqui dentro.
- Èrika (Kika)
- Não quero falar o que gosto de fazer, quem eu sou e o que pretendo, aqui estão histórias, romances, relatos da minha vida ou apenas fantasias, ideias de temas, dilemas, desabafos, verdade ou invenção essa sou eu e deixo essa parte da caixa aberta a você... bem vindo ao meu mundo seja ele de faz de conta ou a dura realidade! Compartilhem, comentem, reflitam, sintam raiva, ou amor, deixo livre e aberto a qualquer sentimento, aqui ele será bem vindo!
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