" Já amanheceu, eu sinto o calor entrando pelos buracos da minha janela de metal.
Eu só tenho forças para virar para o outro lado da cama. E mais nada.
Meus pés se tocam, e ainda sinto que estão quentes, e os meus joelhos dobrados, como se ainda morasse na barriga de minha mãe.
Com um movimento leve, eu abraço meu travesseiro, e sinto seu cheiro entrando bem devagar dentro de mim. E fecho os olhos.
Parece que nem amanheceu. Eu ainda fiquei naquela noite, presa, longe.
Não sou eu que existo depois daquilo tudo.
A cortina não balança, não tem nenhum vento... somos só nós.
O cobertor não tem mais necessidade de estar nos aquecendo, já esta tudo muito quente... como meu quarto.
Sinto minhas costas encostar no seu peito, e eu só sinto o descer e subir da sua respiração. Adormeço.
Sinto seus dedos escorregar devagar na minha perna. Adormeço.
Sinto sua boca deslizar na minha nuca, descendo pro pescoço. Adormeço.
Amanheceu, o calor entra pela janela relutante. E eu vejo nossa hora acabar.
Eu queria tanto adormecer mais.
A guerra começou, e eu saio correndo...
Só ligo o som do meu carro, e viro mais um enfeite da cidade cinza.
O calor nem me incomoda mais, eu tenho que fugir.
Ainda posso sentir o chão gelado ao sair da cama. O cheiro do lençol.
Olhando no espelho, apenas eu e meus defeitos. Sorrio para as qualidades.
Agora fujo. Eu só quero chegar em um lugar seguro... seguro, nada é seguro desse jeito.
Meus pés ainda estão quentes, e eu ainda estou abraçada com meu travesseiro. A janela agora completamente aberta, e eu sei que por ali ainda existe vida.
Porque a cortina balança, e eu posso sentir o vento no meu rosto."
(A MÚSICA É PARA COMPLETAR O TEXTO - LEIA ESCUTANDO.)

Adorei a ideia de música... quando dei play e comecei a ler, iria sugerir mais postos com musica para "harmonizar"... texto maravilhoso, como sempre, apenas os detalhes necessários, o restante fica por conta dos sentidos...
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