Um sonho estranho, sim, ela sonhou com alguém que muito
tempo não encontrava, não falava. Só havia uma lembrança boa de uma noite de
frio, com muitas risadas, e um olhar penetrante junto a uma mesa de bar.
Os dias passaram, não muitos, exatos três dias.
Seu celular tocou, com uma mensagem não muito boa, de uma
promessa de conversa séria no dia seguinte, de um outro, daquele que a meses estava na posse do seu
coração já tão machucado pela vida. Ela não dormiu. Rolou e rolou na cama, sem
entender o que havia mudado em um dia e sentindo o peito doer. Entregue a
ansiedade do dia seguinte. E esse dia, como todos os outros, chegou, com a luz
invadindo o quarto como um ladrão de casas, sem pedir para entrar. Viu-se
obrigada a encarar os fatos de que aquele dia seria diferente, e não seria bom.
– O que parece ruim, a vida com o tempo mostra que pode ser a melhor coisa do
mundo.
Levantou e se arrumou, estava linda nesse dia. Colocou
inúmeras vezes a mesma música para tocar, no rosto havia lágrimas de uma noite
não dormida e da ânsia do que estava por vir. Endireitou-se a frente do
espelho, já estava pronta. – Talvez se achasse pronta. – Mas ninguém esta
preparado para o inesperado.
Ela olhava no espelho, o corpo estava tão mole que a cabeça
balançava no bater seco e forte do coração, via aquele dançar desajeitado do
corpo, sem controle, a blusa que vestia, de cetim leve também obedecia ao bater
do peito. Perdeu as contas de quantas vezes olhou no relógio. – Meio dia era a
hora marcada. – Nessa hora a guilhotina iria descer em seu pescoço, e ela teria
mais uma vez que recolher, sozinha, os pedaços.
Lá foi ela, com tudo ensaiado na cabeça, respostas na ponta
da língua, ao encontro que sem saber, mudaria a sua vida.
Entrou no carro branco, e lá viu mais uma vez aquele rosto
que já estava acostumada. Recebeu um abraço demorado, com dizeres confortantes,
mas ela sentia totalmente ao contrário. Manteve-se calma, com o olhar fixo e
atento a cada palavra que saia daquela boca, de voz forte, todos os dizeres de
elogios e lembranças do que viveram. E ela olhava nos olhos dele, apenas
concentrada em não derramar lágrimas, engolir tudo, como a vida obrigou a
aprender. Foi quando aquela guilhotina
desceu, e como uma lamina bem afiada, as palavras saíram daquela boca de
elogios para um ponto final.
E ela pensava em não derramar as lágrimas. E todo aquele
ensaio em frente ao espelho, o balançar da cabeça e do peito na batida do
coração, sumiu. A única reação foi sair daquele carro, apenas dizer um “-preciso
ir”, abriu a porta, atravessou a rua. E essa foi a última imagem que ele ganhou
dela. Nem um “adeus” saiu de seus lábios, apenas lágrimas escondidas quando
entrou em seu carro, quando ela estava segura de que ele não iria ver, ela foi
recolher os pedaços dessa monologo.
Depois disso, o volante e a cidade se tornou sua amiga,
rondando pelas ruas no Sol quente do dia que estava apenas começando.
Quando sua cabeça encostou no travesseiro, em reencontro das
recordações, se lembrou do sonho de três dias atrás, aquele sonho que mexeu
tanto com sua memória e sem ela saber mexeria também com o seu destino, que
naquela hora parecia sem sentido.
Os dias se tornaram apenas dias, daqueles que batemos ponto,
acordamos, trabalhamos, voltamos para casa e dormimos, para no amanhecer
continuar o mesmo ciclo. Mas para que? – Ela pensava. Para que? Qual o sentido
de se ter um ciclo desses quando a vida pode ser bem mais emocionante. Ela
ainda recolhia seus pedaços, que nesse momento eram apenas restos, os piores
ela já havia colado como das outras vezes.
Aquele homem do sonho, ele existe, já havia passado pela sua
vida, muito tempo atrás, mas estava lá esquecido em um inconsciente do destino.
Só faltava apenas uma coisa, que ela arriscasse.
Um dia de muita coragem, e intrigada com o motivo desse
sonho ela resolve chama-lo. Já com suas partes devidamente remendadas, resolveu
arriscar. E em resposta ganhou um “sim”.
E o dia chegou, mais precisamente, noite. O homem do sonho
estava parado no portão da cada dela. Da mesma forma que o outro a cortou. Com
o coração disparado como há muito tempo não ficava, ela entrou no carro e os
dois sorriram com os olhos para um longo abraço de um minuto, mas para ela,
durou a eternidade.
Ainda com sorrisos no rosto, os dois deram a partida para
uma noite divertida e de muita conversa, confidencias e risadas, com pessoas
dançantes e garrafas de cerveja. Mas ela
reparava que os olhos do homem iam diretamente para os dela a cada palavra que
pronunciava, e os poucos toques corporais, ainda envergonhados e tímidos,
faziam o coração dela disparar ansiosa, sem saber o que a noite estava
preparando para os dois.
Foi quando ela o sentiu segurar a sua mão pelo corredor de
gente, conduzindo-a até o lado de fora para uma conversa mais nítida, eles se
olharam, os olhos tinham se encontrado desde o momento que ela entrou no carro.
Quando entraram novamente no corredor de gente, ela sentiu mais uma vez, a mão
dele segurar a sua, e dessa vez era um segurar mais firma, como se ela já o
pertencesse, e no meio das pessoas, ele parou de frente a ela, e a beijou.
Se pudessem tocar sinos nessa hora, tocaria, foi um beijo
que encaixou, o segurar dele pela cintura dela, o movimento que os dois faziam
com o corpo e a respiração, parecia uma dança discreta de dois corpos que foram
feitos um para o outro.
Os olhos dela mergulharam no escuro dos olhos dele, e ela
viu aquela expressão tão delicada de contorno, a textura daquela pele, a barba
que não incomodava ao toque. Pensou inúmeras vezes o porquê de ter sumido, da
vida desse homem. Mas agora que parecia a Terra começar a encontrar seu eixo
exato, ela entendeu a resposta.
Ali ficaram até a última pessoa ir embora e obriga-los a
fazerem o mesmo. Já querendo amanhecer os dois foram em busca de saciar a fome.
Mas o caminho permitia tantas histórias, tantas experiências vividas, afinal
são duas vidas que estavam separadas há muito tempo.
Na mesa do restaurante eles dividiram experiências e
histórias, relatos dela de traumas vividos e passados, daquelas que por mais
escondido e trancado na memória, às vezes voltam para dar o ar da graça. Ele o mesmo,
e todos os relatos contados por ele, só enxiam o coração dela, na esperança de
ter encontrado alguém tão parecido e tão sensível quanto.
Voltaram ao carro, e sem vontade de ir embora, e o céu já
clareando, ali o coração dela se abriu. Tentou não derramar aquelas lágrimas
que tanto segurou, mas aconteceu. Ele olhava para ela como se enxergasse tudo
como um filme em seus olhos, e ela sentia isso, sentia que ele prestava muita
atenção em cada palavra, mesmo nessas horas ela querendo evitar ser vista tão
exposta e tão frágil. E naquele momento os dois viraram cumplices.
Havia muito mais que conexão com ele, era algo de busca. Os
dois desejavam a mesma coisa, creio que lá do céu, como um poder divino,
poderia ser visto o momento da cumplicidade, a vida sendo imaginada na cabeça
deles, como aqueles balõezinhos sonhador de desenhos, ali os dois já se
imaginavam juntos muito além daquela noite.
O céu estava totalmente claro quando eles se deitaram, ele
por cima dela, ela por cima dele. Era uma vontade misturada com carinho, que
confessado por ele, queria há muito tempo, desde a primeira vez que ele a
conheceu.
Confessou que também não entendia o porquê desse tempo todo
longe, se era tão completo o que ele sentia, mesmo observando a distância cada
publicação que ela fazia, cada foto postada. Ela só sorria, como se aquilo
explicasse cada vez mais a sua pergunta.
Ela adormeceu sobre o peito dele, sentindo descer e subir
com a respiração. No dia seguinte seria o Dia das Mães e ele precisava ir. Mas
antes com a promessa de que iria voltar a noite e ela esperaria cada minuto
para isso.
Como prometido ele aparece, e as declarações são mais
intensas e mais firmes, os olhos continuam sendo a porta de toda a comunicação.
Os toques, os beijos, os abraços e as vontades, todos encaixados como uma bela
música e sua partitura.
E mais uma madrugada foi feita com esse casal, que não
conseguia se soltar, por serem duas peças, que estavam vagando procurando o
encaixe milagroso nessa vida. Os olhos dele ainda continuaram a admirar os
dela, e as mãos dela em um movimento suave de carinho, passava pelo rosto dele.
Era preciso tocar para acreditar que tudo aquilo fosse verdade.
Antes do trabalho, ela foi encontra-lo, pela manhã. Os dois
sentaram em uma padaria, e permaneceram por lá algumas horas, um de frente para
o outro. Como se fosse de costume a anos fazerem isso. Trocaram carinhos,
declarações e risadas. Ele a elogiou por estar arrumada para o trabalho, ela
admirava a roupa de academia dele que deixava muitas partes do seu corpo
aparente.
Em meio a tantos “te adoro” já ditos, ela estava com uma
palavra presa na garganta, porque não era apenas “adorar” que ela sentia. Ela o
levou para a academia, e esperou ele estar prestes a sair do carro, quando
puxou levemente ele pela barba, e ao pé do ouvido disse que o amava. Ele saiu
sem responder, um pouco daquele aperto apareceu em seu peito, e a dúvida de ter
precipitado as coisas.
Passou algumas horas, e chegou uma mensagem, era ele,
perguntando se ele havia ouvido além, com medo, ele achou que sim, mas ela
respondeu que havia dito aquilo mesmo. Foi segundos de silêncio, até ele dizer
que só responderia olhando para os olhos dela, e que a noite estaria na porta.
Como prometido, e com aquele sorriso no rosto, um pouco
maior do que a primeira vez, ele estava a noite em frente a porta dela. E
olhando em seus olhos, segurando seu rosto com as duas mãos e debruçado no
banco do carro onde ela estava sentada, ele disse que a amava, e que tinha
certeza que ela é a mulher de sua vida.
Os dias passaram, e em um final de semana, ao acordarem
juntos em uma cama imensa e enrolados em lençóis, ele a imaginou gravida, ela
imaginou ele adormecendo e acordando ao lado dela todos os dias, ele sorriu,
ela sorriu. Estavam felizes e com a certeza de que dessa vez o universo havia
escutado todos os pedidos de tanto tempo, que os dois já fizeram na vida. E ele
olhando nos olhos dela, como sempre faz, perguntou se ela aceitaria ele como
seu namorado. Porque era exatamente o que os dois sentiam, desde aquele dia que
ele foi busca-la em casa para saírem. E sua resposta foi sim.
O universo tanto escutou, como fez com que eles se
encontrassem 365 dias depois da primeira vez que se viram. Exatos 365. O
universo tanto escutou como fez juntar dois amantes de arte e literatura. O
universo tanto escutou como fez pessoas erradas saírem de seus caminhos na hora
exata. Fez aparecer em sonho, fez a procura de dois caminhos solitários virar
um caminho conjunto, dos mesmos ideais, das mesmas vontades. Colocou um sorriso
permanente no rosto, e deu força para os dois continuarem quando acontecer
dificuldades.
Eles agora estão juntos, aprendendo, vivendo e sorrindo.
Ajudando, confortando e sonhando. E aquela resposta que tanto procuravam, do
motivo por terem se afastado por tanto tempo, foi respondida, não era a hora.
Agora sim, é a hora certa de ser feliz...
O universo cuida, tudo em seu tempo, mas ele nunca deixa de
escutar os corações solitários que procuram a dádiva do amor.

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