" O céu era de um cinza de gelo, no fundo cinza escuro e mais perto se tornava mais próximo do branco.
A garota na cama observava, mas não sabia se o céu estava sem nuvens ou se as nuvens tomará conta de todo o céu que lá estava, prestes a receber a chuva.
Pingou, na verdade ela viu da janela, o chão molhar, levemente, quase em um brilho uniforme sem escorrer, apenas reluzir com a pouca luz do dia.
Ela se cobriu, e ficou olhando, para aquele imenso manto branco que dominava toda a sua janela.
Sentiu o vento gelado do dia bater no que sobrou do seu rosto não coberto pelas diversas mantas que a esquentava. E lembrou de um dia parecido no começo do ano.
Mas ao acordar e fitar a janela, ao invés de estar levemente gotejando, estavam a cair flocos de neve, branca como o céu de hoje, e lotava o chão, quase sem ver o que se pisava. E a janela tomada pela cortina laranja e branca. A cama era maior, e não era preciso muitas mantas, havia aquecedores para salvar daquele dia gelado que se iniciava.
Ah, não...não era igual a hoje. Ela sentia vontade de sair da cama, ela sentia vontade de andar na rua, mesmo sem rumo e sem companhia, ela sentia vontade de respirar aquele ar frio, de cortar-lhe por dentro. Hoje ela permanecia deitada, ela permanecia só a observar a janela, acima de sua cabeça.
Lembrou-se das escolhas das roupas, e a quantidade que vestia, uma em cima da outra, camadas e camadas de tecidos, e a bota acima de duas meias. Tudo isso para brincar de andar na neve.
Andava em direção do inesperado, a caminho do metro, com um mapa na mão, uma bolsa lateral, que continha seu guarda-chuva, seu dinheiro, o celular, uma câmera e a chave de casa. Nada mais. E se lembra de todos os dias mais frios, que aqueles flocos de neve despencavam, ela saia com um sorriso no rosto. Saia sem tirar a neve que fincava no bico dos sapatos e em seus ombros no casaco preto de gola alta.
Hoje ela ainda lembrava de tudo ali, deitada, sem vontade, na verdade sem qualquer tipo de esperança de que as coisas ali iriam mudar. E realmente esta difícil para ela que as coisas mudem. Quando mudam, ela tem a sensação de que estão indo para pior. Ela se lembrava ser mais feliz ali, nos flocos de neve, e sem muito dinheiro.
Olhando pela janela, esqueceu-se de comer. Mas se lembrou da taça de vinho no restaurante acima da rua em que morava, e os milhares de croquet que consumia. E fazia questão de comer ao lado de fora, para não perder nenhuma vista, nenhum detalhe. Mesmo não gostando de comer sozinha, ali, parecia que não estava, e se estava em algum momento, logo respirava fundo e olhava com detalhes qualquer movimento pela rua.
Chamava mais atenção por estar ali sozinha.
Na cama, ou até mesmo na rua, hoje, e esses dias que se passam sem ter neve, ela não chama qualquer tipo de atenção. E sente também não fazer muita diferença.
Pensou ela, o porque teria que ficar aqui, obrigava-se a ficar aqui para que? Se não teria importância estar.
Ela sabe que lá ela faz falta. Sabe que quando embarcou naquele dia, que nevou, fez sol e choveu, ela deixou metade do coração naquela sala de embarque, naquela estrada, e na última foto que tens da estrada ensolarada rumo a sua despedida.
Estava amarelado o dia, mas havia feito muito frio, e até havia caído gelo do céu, gelo redondo, minúsculas bolinhas, e isso fez com que ela torcesse que fechasse o aeroporto, mas não, logo saiu o sol. Ela tinha que ir.
Se destinou novamente a se jogar na cama, que se passaram meses nela. Sem muito ânimo, sem muita vontade. Não que ela não buscasse a mudança, é que os dias que a mudança não vêm é mais um dia de desânimo.
Para ela, aqui é no piloto automático, o que se tem que fazer, e os dias arrastados. A mesmice da paisagem, e as decepções de que ela já conhece. As mesmas histórias, e as mesmas desculpas.
Lá teria a desculpa de estar longe, e todas as desculpas e decepções pareciam mais sinceras quando ela não estava presente para sentir que eram mentiras.
O céu o dia todo não mudou de cor, até escurecer e ser tomado por um cinza chumbo, até se entregar ao preto por completo. Sem sinal de estrelas, foi o que ela pensou, as nuvens tinham tomado conta por completo do céu hoje, e não eram nuvens de verão. Já eram nuvens de outono. Daquelas que não sobra o pedaço do céu.
Ela se levantou, alimentou-se, banhou-se e voltou para observar o céu da noite.
E pensou... que falta faria para as flores que nascem lá na época de primavera. Pensou na metade do coração que faz falta e que a cada dia na mesmice dos dias de cinza gelo, afasta cada dia mais a chance de ir busca-lo."
Tudo que guardo aqui dentro. ****************************************************************************************** (reformulação do blog sessaocorujabykika.blogspot.com, o passado ficou para lá. Ainda ativo. Aqui pretendo deixar outras coisas nessa caixa.)
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- Èrika (Kika)
- Não quero falar o que gosto de fazer, quem eu sou e o que pretendo, aqui estão histórias, romances, relatos da minha vida ou apenas fantasias, ideias de temas, dilemas, desabafos, verdade ou invenção essa sou eu e deixo essa parte da caixa aberta a você... bem vindo ao meu mundo seja ele de faz de conta ou a dura realidade! Compartilhem, comentem, reflitam, sintam raiva, ou amor, deixo livre e aberto a qualquer sentimento, aqui ele será bem vindo!
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