" Caminhou com as mãos nos bolsos para não congelar os dedos, que já estavam dormentes, colocou o máximo possível de seu rosto enterrado na gola alta do casaco e procurou não escorregar na placa de gelo liso que estava na calçada. Os passos eram firmes, deixavam um rastro de pegada das botas de aderência sobre a camada fina de gelo.
Procurou apenas andar, não olhou para trás, ainda tinha o perfume dele preso no rosto, se respirasse forte ainda poderia sentir o cheiro forte de perfume masculino em seus lábios. Procurou não pensar, procurou não chorar e não conseguia sorrir.
Só parou quando se deu conta de estar bem longe, e seu ventre se chocou com um bloco de concreto, era a ponte, ela estava voltada para o rio, um rio que pareceu negro naquela hora da noite, e ai respirou mais calma, mesmo que seus olhos só olhassem para o rio, ela ainda tinha ele em pensamento.
Saíra correndo do restaurante, estava tudo bem no começo da noite, ele estava vestido com um lindo casaco sobretudo, um cachecol e uma calça jeans. Era ele, sempre ele, ali parado em sua frente, com um largo sorriso branco, deixando a fumaça das tragadas do cigarro saírem de sua boca, como um galã de filme antigo. A recebeu com o mesmo sorriso, e a beijou a boca como antes, segurando seu rosto e passando a mão levemente em seu cabelo.
Já havia uma mesa a espera dos dois, era o mesmo restaurante de sempre, o mesmo garçom de todas as noites, e ela estava igualmente feliz, como todos os encontros com ele, sabia que depois do restaurante, eles iriam de mãos dadas pela rua se protegendo do frio andando juntos, chegariam na casa dele e esqueceriam do frio da rua, abririam uma garrafa de vinho, e se olhariam no sofá, e já sem roupa estariam na cama, trocando de lugar, se aquecendo apenas com o calor dos corpos que estariam entrelaçados em movimentos e carinhos. Acordariam no dia seguinte e cada um seguiria a sua vida, cada um para seu trabalho... A mesma coisa de sempre.
Mas ela não esperava que nessa noite seria diferente, essa noite tudo seria diferente depois da sobremesa pedida no restaurante.
Olhou mais uma vez para o rio. Não, eu não posso fazer isso, não por ele, não vou. Pensou ela em pular, mas era fraca até para isso, era fraca por ele, imagine em tirar sua vida. Enfiou mais uma vez as mãos nos bolsos e caminhou rumo a sua casa.
Finalmente colocou a chave no furo da fechadura e entrou, logo ligou o aquecedor, e foi direto ao banheiro, precisava tirar o cheiro dele na carne, era torturante, mas ao tempo que a água e o sabão levava-o embora, ela saberia que sentiria a falta dessa lembrança que sempre carregará no dia seguinte, e que seria a última vez que poderia sentir.
Se serviu de uma taça de vinho, e sentou perto do aquecedor, não conseguia mais chorar. Veio então a raiva, a culpa, e a confusão. Quando o telefone tocou. Ela deixou cair na secretária eletrônica e uma voz que ela conhecia muito bem saiu da caixa.
"Ei, está ai, fiquei preocupado com você, saiu, correndo quando voltou do banheiro, não sei o que aconteceu, fiz algo de errado? Por favor me retorne ok, estou em casa, quer que eu vá até ai? Que droga..."
Escutou um bipe, e a ligação terminou.
De fato, foi embora sem ouvir a explicação dele, apenas voltou, pegou sua bolsa e casaco, e saiu e o deixou ali na mesa, sem reação.
Mas quando uma mulher aparece no espelho ao lado do seu no banheiro, e mostra uma foto dele com ela, beijando-a do mesmo jeito que ele a beijava, seria motivo suficiente para sair correndo. Ficou tão atordoada que não se lembrava do rosto na mulher, só lembrava que diferente dela, a mulher era loira. E viu o sorriso que ela fez quando mostrou a foto, parecia dizer, olhe é ele não é? e essa não é você.
Bebeu em um gole a taça de vinho, ao lembrar dessa cena, fechou os olhos com tanta força que ao abrir viu pontos luminosos piscando, e mais uma vez o telefone tocou e mais uma vez ela deixou a secretária eletrônica fazer o serviço.
"Estou indo ai certo, estou preocupado e não vou dormir com isso na cabeça. Em cinco minutos estou ai."
Só se ele vier de táxi,a casa dele é muito mais que isso apé daqui. Pensou ela.
Não se mexeu, ficou sentada no mesmo lugar, se fosse outras épocas ela escolheria a melhor roupa para ele, a melhor lingerie, pentearia os cabelos, e retocaria a maquiagem, dessa vez, ele iria ver a sua essência pura e sem disfarce, e dessa vez ela nem ligará para isso.
Escutou a campainha, e ao tocar ela parecia longe, cada vez mais longe e longe...
Ela acordou, o coração palpitando, o suor gelado, ainda com a visão desfocada, e os punhos cerrados amassando o cobertor pesado de inverno.
Levantou sentando-se na cama, olhou para o lado, e viu o corpo dele, com o tronco nu, dormindo ao seu lado, da mesma forma que viu muitas vezes. Ela olhou para ele, ainda em dúvida. Será que aconteceu, eu lembro-me de ter ido jantar com ele, de ter tomado vinho. Sim ainda sentia o gosto do vinho na boca. Será que apaguei quando ele chegou, e não lembro mais o que fiz. Meu Deus. O que aconteceu? Levantou da cama, e caminhou até seu banheiro. Ela estava no seu apartamento, não no dele que de costume era. Acendeu a luz, lavou o rosto, e quando olhou no espelho, levou um susto. Desde quando eu sou loira? O que esta acontecendo? Saiu do banheiro, com as mãos tremendo, procurando no lixo alguma caixa de tintura de cabelo, não achou, foi até a sala, e viu vazia uma garrafa de vinho e duas taças, caminhou até a mesa do telefone, lembrou da mensagem deixada por ele na secretária eletrônica, estava vazia.
- Volta pra cama, o que esta fazendo de pé a essa hora? - Ela virou em um salto, seu coração quase explodiu de tantos batimentos, era ele com os olhos serrados de sono, encostado no batente da porta da sala, apenas de cueca.
- Já vou, volte e me espere, só preciso levar essas taças pra cozinha. Alias, ontem você me ligou? - Ela se virou para pegar as taças, mas fez para que ele não visse seu rosto atordoado.
- O que esta falando, deixa as taças ai e vamos dormir. Tomamos tanto vinho assim que não se lembra de ir jantar comigo, sempre fazemos isso. Vem logo pra cama. - Ele se virou, coçando a parte superior das costas e caminhou devagar ao quarto.
Eu não era loira. Fomos jantar sim, mas eu sai de lá, quase me joguei no rio, esperei por ele aqui em casa, tomei uma taça de vinho. Meu Deus, ou ele me drogou e pintou meu cabelo, ou amanhã preciso de um médico urgente, eu não lembro a cor do meu cabelo. Fotos... Ela foi direto a um único quadro da sala que tinha molduras de muitas fotos, de família amigos, e deles. E lá estava os cabelos loiros quase brancos. Não, não é possível, estou louca.
- Vou acabar dormindo sozinho, é isso? - Disse a voz dele no quarto.
Vou dormir, quem sabe esse é o pesadelo, preferia na verdade que esse fosse a realidade, estaria feliz com ele na minha cama, feliz em descobrir que não tem outra, mas infeliz em saber que estou ficando louca e talvez fique sem ele por isso. Ela sorriu com tudo isso, e foi em direção ao quarto.
Lá estava ele, do mesmo jeito que ela lembrava, se era sonho, ou realidade, ele era o mesmo nos dois mundos. Esperava por ela sempre sentado na cama, deixava o cobertor cobrir apenas a cintura, sabia o que ela gostava de ver, adorava as pernas grossas dele, e o ombro quadrado, adorava o pescoço dele, pescoço de homem, dizia ela. E ele dava aquela leve batidinha no lado em que ela dormia na cama, e fazia aquela mesma cara de quem espera a companhia dela para só assim dormir bem. Ela se rendeu, e se enfiou debaixo do cobertor pesado, ele escorregou seu corpo mais para baixo e passou um dos braços em volta do pescoço dela.
- O que aconteceu hein? que pergunta foi aquela? Não se lembra em ter ido jantar comigo? - Disse ele, com a outra mão acariciando os cabelos dela.
- É que tive um pesadelo horrível, e fiquei na duvida se estava no pesadelo, ou se esse é o sonho. Sabe parece loucura, mas eu não me lembro de ser loira. - Disse em um tom verdadeiramente de dúvida.
- O que esta falando? - Ele se afastou um pouco dela, mas continuou com o braço envolvendo o pescoço dela. - Você sempre foi loira, jantamos ontem, no mesmo restaurante de sempre, mas você preferiu mudar as coisas, e olha me surpreendeu na mudança. - Disse ele com um sorriso enorme de satisfação.
- Ah é? Qual foi a surpresa? - Ela olhava para ele, sorriu em ver o enorme sorriso que ele carregava no rosto. Não era sorriso de deboche, era um verdadeiro sorriso de satisfação.
- É você esta estranha mesmo, talvez amanhã te leve no médico. - Ele a abraçou. - Você disse que essa noite passaríamos aqui na sua casa, porque você precisava me mostrar uma coisa, uma não, duas. Uma confesso que nunca havia visto você fazer isso, e outra eu realmente não esperava tão cedo.
Ela olhou curiosa. Não lembro de porra nenhuma que eu fiz ontem. Pensou.
- Olhe para o lado. - Disse em com uma cara que ela conhecia bem, a cara de safado, daquelas que costumava fazer quando estavam na cama.
Ela olhou, acendeu o abajur e viu corpete preto de renda, que combinava com a calcinha que ela usava, um chicote, meias uma para cada lado, algemas, um par de sapatos bem alto, uma máscara. O que eu fiz? nunca teria coragem de fazer isso, sempre fui ridícula, sempre com vergonha de fazer isso com ele, mesmo ele me pedindo muitas vezes. Que droga que eu usei.
- Achei que você não gostava disso, foi uma surpresa e tanto. Pode repetir quando quiser. - Disse ele apagando o abajur, depois ajeitou a cabeça dela no peito, e ficou em silêncio.
Tem algo de errado, que mundo eu estou vivendo? Ei... pera, ele disse que eu fiz duas surpresas, e a outra. Pensou ela, e percebeu que ele estava quase adormecendo, já quase pegando no sono profundo. Ela foi próximo ao ouvido dele e perguntou bem baixo, para não assusta-lo.
- Qual foi a outra surpresa que eu fiz para você? - Disse quase em um sussurro.
Ele se virou abraçando-a por trás, se ajeitando para um longo sono.
- Amanhã você vai no médico. Esquecer nosso primeiro filho não é normal. - Disse no ouvido dela, e logo adormeceu dando um último beijo no pescoço.
Eu estou grávida? O coração mais uma vez quase explodiu, as mãos suaram feito dias quentes de verão.
Ela despertou, a casa arrumada, as roupas que estavam pelo chão não estava mais, ela estava no quarto, a cama vazia do outro lado, correu para o banheiro, seus cabelos castanhos. Como sempre, eu sabia, aquilo era um sonho. Pensou logo e lavou o rosto.
Foi até a cozinha, abriu a geladeira e pegou a garrafa de água que lá estava, ao fechar viu um bilhete.
"Parabéns a mamãe mais bonita do mundo, só precisamos decidir... na sua casa ou na minha? Te vejo a noite. Com amor."
A letra ela conhecia só que não conhecia a si mesma.
Qual será a minha verdade? "
Tudo que guardo aqui dentro. ****************************************************************************************** (reformulação do blog sessaocorujabykika.blogspot.com, o passado ficou para lá. Ainda ativo. Aqui pretendo deixar outras coisas nessa caixa.)
Tudo que tem aqui dentro.
- Èrika (Kika)
- Não quero falar o que gosto de fazer, quem eu sou e o que pretendo, aqui estão histórias, romances, relatos da minha vida ou apenas fantasias, ideias de temas, dilemas, desabafos, verdade ou invenção essa sou eu e deixo essa parte da caixa aberta a você... bem vindo ao meu mundo seja ele de faz de conta ou a dura realidade! Compartilhem, comentem, reflitam, sintam raiva, ou amor, deixo livre e aberto a qualquer sentimento, aqui ele será bem vindo!
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