" Era como gosto amargo de café sem açúcar - ela pensou enquanto a água escorria no seu corpo debaixo do chuveiro. A água era quente, temperatura que deixava a sensação confortável quase parecida com um abraço. E por lá ficou, sentindo o calor pelo corpo todo.
O que tanto erro? Deus, será possível, todos os dias tem que acontecer alguma coisa, tem que mudar alguma coisa? Por que não muda para melhor só para variar. - A cabeça encostada na parede já molhada pelo banho, só metade do corpo com a água deslizando, quente, que deixava partes avermelhadas.
O vapor era denso, já parecia estar em uma sauna, e a vontade de sair daquele chuveiro eram nulas. - Quero sair daqui debaixo só quando alguma coisa acontecer de bom. - Pensou colocando a cabeça debaixo das milhares de gotas que desciam.
O celular vibrou. - Maldita tecnologia, nos deixam escravos disso, parecem o sinal divino quando tocam, parece que é Deus mudando a sua vida em um trepidar de um bloco preto que acende luz. E eu, até levo ao banho, deixo ele aqui na pia, como se um segundo fosse mudar toda essa meleca. - Pensou, enxugando as mãos e abrindo o box para acalçar o celular.
Uma mensagem, número 00000000 - Que número é esse, deve ser mais uma promoção de operadora, mais um engano de cobrança. - Desistiu de ver e continuou a afundar a cabeça quase morta e mole debaixo da água.
Já se passou muito tempo debaixo desse chuveiro, isso gasta, e a água não vai mudar minha vida, pensar na vida no banho também não, o que mudaria eu sair cheia de sabão e molhada, sem contar no frio que eu sentiria em pleno inverno. Chega de perder mais meu tempo, colocarei meu pijama e deitarei na cama, a mesma cama. - Desligou o chuveiro, o vapor ainda dominava quase impedindo ela de ver qualquer objeto do banheiro, se enrolou na toalha que estava ali pendurada no box, e se sentou em cima da tampa do vaso sanitário. Olhou mais uma vez para o celular na pia, e resolveu ler a mensagem.
(Vim por meio desta lhe dizer que te darei uma chance, pense muito ao executa-la. Ao sair desse banheiro terá como decidir uma coisa que mudaria nas decisões erradas que tomou. Sei que não foram todas culpa sua, como pensa, realmente não foram, mas cabe a você decidir quem e o que fica na sua vida, apenas uma mudança, talvez a escolhida mude todo o resto. Sei o quanto dói, vejo isso tudo, não digo que não prego-lhe peças, não vou dizer também que nunca gargalhei das decisões medonhas que vejo você tomar, mas ai esta, uma única chance. Antes que se pergunte que merda é essa, é a tecnologia chegou até mesmo em seus desejos, assim fica mais fácil de entrar em contato, achei por meio de mensagem ficaria mais breve sem problemas de questionamento de sua parte, não quero que me pergunte nada, nem mesmo que eu sou, mas só te digo, saindo daquela porta, você terá a oportunidade que pediu, apenas uma, então pense, sei que usa o banho para isso, colocar a cabeça pesada na parede e deixar a água relaxar seu corpo é realmente uma boa forma de pensar. Boa sorte garota.)
Além de debochar da minha cara ainda faz me sentir maluca, deve ser alguém brincando comigo. - Apagou a mensagem, pensou antes em responder, mas esse número, não era número que aceitaria um envio de resposta. Quando colocou novamente o celular na pia, ele vibrou, mais uma mensagem, do mesmo número.
(Não é uma brincadeira, pense e escolha.)
Permaneceu sentada ali, o vapor já estava quase pela metade, já podia ver a maioria dos objetos suando, derramando gotas do banho quente. Levantou, limpou com uma das mãos o espelho, deixando uma leve faixa com gotas de água, pode ver sua imagem retorcida na sua frente, esfregou as mãos no rosto, olhou novamente a mensagem, viu que não estava louca, e começou a pensar, no que deixará aquele gosto do café amargo na boca, quais seus medos e quantas decepções e alegrias havia derramado em seus banhos, quantas vezes ali sorria se preparando para uma noite feliz, e quantas vezes chorava ou pensava quando o que a esperava era apenas uma cama vazia e uma noite longa de leitura e lembrança. As vezes que as pessoas esqueceram que ela carregava sentimentos, as vezes que alguém esqueceu de todas as coisas que um dia entregou a ela, dos cheiros de perfumes que ela removia do corpo enquanto a água quente escorria e o sabonete retirava as lembranças. A última vez que ela respirava o perfume de outra pessoa presa em um pedaço de sua pele, e sentia saudades quando terminava o banho e percebia que o cheiro havia ido embora. As vezes que se trancava lá, só para o barulho do chuveiro abafar o choro, e as vezes que a música alta colocada durante o banho fazia com que ela dançasse.
Lembrou de tudo isso, lembrou das vezes que ficava vendo a rua pela janela enquanto tomava banho, o vento gelado que batia no rosto quando seu corpo estava quente da água, dos incensos que acendia durante um dia tenso para ajudar a relaxar, dos desenhos que fazia no box, dos corações com iniciais dos meninos que gostou durante a vida.
Realmente era o seu lugar favorito para pensar. Era a água, o barulho dela ao bater no chão, o calor que ela proporcionava no corpo, e a deixava invisível com o vapor. Era um lugar que sempre respeitavam, e nunca entravam sem bater ou apenas por emergência, era um lugar que ela sempre ficará sozinha sem explicação do porque.
Depois de tanta lembrança, de pensar em tudo que havia passado no menor comodo de sua casa, lembrou-se do que deveria mudar. Afinal, novamente era lá que ela estava, e estava fazendo como antes, pensando nos motivos que estava tão chateada.
As expectativas novamente foram quebradas, e não conseguia achar a peça do quebra-cabeça, não achou a sua culpa, e talvez não fosse sua culpa dessa vez. - É não foi a minha culpa, dessa vez não, deixei livre, deixei que os dias me mostrassem como seriam, e o que aconteceu... aconteceu que os dias me mostraram que houve mudanças, mudanças da forma que me trata, mudanças, elas nunca são boas comigo. - Assim decidiu.
Decidiu que nada iria mudar, decidiu que qualquer mudança que fosse fazer não adiantaria, por que na vida, não cabe a um ser apenas mudar as coisas, é preciso os dois, duas mudanças, voltarem a ser como antes, ou o caso seria o que de obvio iria acontecer caso continuasse assim.
Para onde foi tudo aquilo? Alguns dias eu estava aqui sorrindo, me sentindo a pessoa mais importante pra ele, sim eu me sentia importante, e agora, eu nem sei o que eu sou, as vezes pareço apenas aquela ali. E foram as mudanças que me fizeram infeliz. Eu não vou mudar nada. - Abriu a porta no banheiro, ainda enrolada na toalha, mas já o corpo quase seco. Olhou-se no espelho e disse: Eu, essa sou eu, me conheceu assim, não mudei, e se for pra ser, não precisarei mudar para ter. Eu só quero que as coisas não mudem. Por que não pode ser bom como o começo... E se mudar eu sei que não foi por minha causa. Porque eu continuo a mesma. A mesma que vai estar pensando debaixo do chuveiro, e a mesma que ele conheceu. - Colocou seu pijama, e deixou agora o travesseiro fazer a parte do descanso. "
Tudo que guardo aqui dentro. ****************************************************************************************** (reformulação do blog sessaocorujabykika.blogspot.com, o passado ficou para lá. Ainda ativo. Aqui pretendo deixar outras coisas nessa caixa.)
Tudo que tem aqui dentro.
- Èrika (Kika)
- Não quero falar o que gosto de fazer, quem eu sou e o que pretendo, aqui estão histórias, romances, relatos da minha vida ou apenas fantasias, ideias de temas, dilemas, desabafos, verdade ou invenção essa sou eu e deixo essa parte da caixa aberta a você... bem vindo ao meu mundo seja ele de faz de conta ou a dura realidade! Compartilhem, comentem, reflitam, sintam raiva, ou amor, deixo livre e aberto a qualquer sentimento, aqui ele será bem vindo!
Nenhum comentário:
Postar um comentário